A Antonio Oviedo
Jóvens de ternissima cintura
que andais o mesmo que a melodia
e que passeando ides pelos verdes
como o jasmim que na manhã ardia.
Moças que emprestais arquitetura
trêmula aos ares noite e dia,
e sustentais com vossa mão pura
o firmamento da poesia,
adoráveis de fruta e veludo
onde a terra começa a ser de céu,
onde o céu é aroma, todavia;
deixai que ao ir-me da primavera
volte a mirar-vos pela última vez
e vos dê esta rosa de melancolia.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
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quinta-feira, 29 de agosto de 2013
'TEMPO DE ESQUECER'
Sabes que sou como um rio abandonado
no sedento leito do esquecimento,
e a tua vã lembrança tão unido
como a água ao seu céu refletido;
Sabes que sou como o tempo desfolhado
na mão final do que foi perdido
e, como um horizonte proibido,
me envolves o sonho vigilante;
Sabes que sou como o ar, destinado
ao vôo de tuas aves, som ferido
surdidor rouxinol e enamorado:
Sobre este coração crepuscular
e por turvas marés assaltado,
tornas-te nuvem voando para o esquecimento.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
no sedento leito do esquecimento,
e a tua vã lembrança tão unido
como a água ao seu céu refletido;
Sabes que sou como o tempo desfolhado
na mão final do que foi perdido
e, como um horizonte proibido,
me envolves o sonho vigilante;
Sabes que sou como o ar, destinado
ao vôo de tuas aves, som ferido
surdidor rouxinol e enamorado:
Sobre este coração crepuscular
e por turvas marés assaltado,
tornas-te nuvem voando para o esquecimento.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
''DOURADA AMIGA''
A Manuel Halcón
Ao passar por minha, alma
a tarde se faz música.
Já sua vencida graça
se precipita em meu ombro:
e me vêm desejos
de tomar-lhe as mãos
e falar-lhe como falara
a uma amiga dourada.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
Ao passar por minha, alma
a tarde se faz música.
Já sua vencida graça
se precipita em meu ombro:
e me vêm desejos
de tomar-lhe as mãos
e falar-lhe como falara
a uma amiga dourada.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
''IMAGEM QUASE PERDIDA''
És como a luz alta e delgada.
Como o vento és clara sem o saber.
Vacila tua atitude como a tarde
suavemente inclinada sobre o mundo
És feita de sonhos esquecidos
e te esqueço logo, como a um sonho;
meu coração te busca como a fumaça
busca a altura e nela morre.
Como uma trepida flor te leva o dia
Presa entre seus lábios. És alta,
azul, delgada e reta como um silvo.
Recordo-te, de imediato, como a um sonho.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
''CELESTE INSTANTE''
Na minha mão ansiosa
um instante tua mão
morna e celeste.
O olhar do tato
olhou seu aroma
de cinco pétalas.
Levou a corrente
do meu sangue, a forma,
a pressão de tua mão
morna e celeste.
A terra de minha mão
foi num instante enlunada
e para sempre.
E num instante sentiram
meu coração, minha fronte,
o roçar de tua mão
morna e celeste.
E fugiste para à tarde
como um vento de flores
e de sorriso.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
'NADA MAIS'
A Rafael Azula Barrera
Resta-me a alva cheia
de presenças azuis
e a gota do tempo
sobre o cristal do sonho.
Resta-me o curvo rio
onde apóia sua fronte
a lua enquanto canta
com voz delgada e branca.
Resta-me uma janela
com contorno de sorriso
e olhares, semeando,
terna, sua trepadeira.
E a espiga da alma,
sua dourada verdade,
querendo ser estrela:
já quieta claridade.
Com os braços abertos
resta-me o horizonte,
e aquela margarida
morta com seu segredo.
E um amor, um amor
mais alto que meu canto,
que me torna celeste
e me ascende a cálida
guitarra do sangue.
Resta-me essa cidade
de sinos, afundada
no meu fechado mar,
e um doce caracol
que me dá seu rumor
achado nesta humana
praia das palavras.
Restam-me, vagamente,
a borboleta diáfana
da luz, uma tarde
limitada de música,
aquele perfil de lua
e uma voz que me chama
coberta de orvalho.
E o rumor cristalino,
da hora, crescendo
surdidor rumo ao frio
espaço da morte.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
Resta-me a alva cheia
de presenças azuis
e a gota do tempo
sobre o cristal do sonho.
Resta-me o curvo rio
onde apóia sua fronte
a lua enquanto canta
com voz delgada e branca.
Resta-me uma janela
com contorno de sorriso
e olhares, semeando,
terna, sua trepadeira.
E a espiga da alma,
sua dourada verdade,
querendo ser estrela:
já quieta claridade.
Com os braços abertos
resta-me o horizonte,
e aquela margarida
morta com seu segredo.
E um amor, um amor
mais alto que meu canto,
que me torna celeste
e me ascende a cálida
guitarra do sangue.
Resta-me essa cidade
de sinos, afundada
no meu fechado mar,
e um doce caracol
que me dá seu rumor
achado nesta humana
praia das palavras.
Restam-me, vagamente,
a borboleta diáfana
da luz, uma tarde
limitada de música,
aquele perfil de lua
e uma voz que me chama
coberta de orvalho.
E o rumor cristalino,
da hora, crescendo
surdidor rumo ao frio
espaço da morte.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
''DOMINGO''
Um domingo sem ti, de ti perdido,
é como um túnel de paredes cinzas
aonde vou iluminado pelo teu nome;
é uma noite clara sem sabê-lo
ou uma segunda-feira disfarçada de domingo;
é como um dia azul sem tua permissão.
Chove neste poema, tu o sentes
com tua alma vizinha do cristal;
chove tua ausência como uma água triste
e azul sobre minha fronte desterrada.
Compreendi como uma palavra
pequena, igual a um alfinete de lua
ou um leve coração de mariposa,
alçar pode muralhas infinitas,
matar uma manhã, de repente,
evaporar azuis e jardins,
esmagar um dia como se fora um lírio,
transformar estrelas em grãos de sal.
Compreendi como uma palavra
da matéria azul das espadas
e com aguda vocação de espinho
pode estar na luz como uma ferida
que nos dói no centro da vida.
Chove neste poema e o domingo
gira como um longínquo carrossel;
tão perto estás de mim que não te vejo,
feita de minhas palavras e de meu sonho.
Penso em ti além da distância,
com tua voz que me inventa os domingos
e o sorriso como uma vaga pétala
caindo do teu rosto sobre minh’alma.
Com sua folha voando para a noite,
raiado de garoa e desencanto,
este domingo sem teu visto
chega como uma carta equivocada.
A tarde, menina, tem essa tristeza
do ar onde houve antes uma rosa;
eu estou aqui, rodeado de tua ausência,
feito de amor e sozinho como um homem.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
é como um túnel de paredes cinzas
aonde vou iluminado pelo teu nome;
é uma noite clara sem sabê-lo
ou uma segunda-feira disfarçada de domingo;
é como um dia azul sem tua permissão.
Chove neste poema, tu o sentes
com tua alma vizinha do cristal;
chove tua ausência como uma água triste
e azul sobre minha fronte desterrada.
Compreendi como uma palavra
pequena, igual a um alfinete de lua
ou um leve coração de mariposa,
alçar pode muralhas infinitas,
matar uma manhã, de repente,
evaporar azuis e jardins,
esmagar um dia como se fora um lírio,
transformar estrelas em grãos de sal.
Compreendi como uma palavra
da matéria azul das espadas
e com aguda vocação de espinho
pode estar na luz como uma ferida
que nos dói no centro da vida.
Chove neste poema e o domingo
gira como um longínquo carrossel;
tão perto estás de mim que não te vejo,
feita de minhas palavras e de meu sonho.
Penso em ti além da distância,
com tua voz que me inventa os domingos
e o sorriso como uma vaga pétala
caindo do teu rosto sobre minh’alma.
Com sua folha voando para a noite,
raiado de garoa e desencanto,
este domingo sem teu visto
chega como uma carta equivocada.
A tarde, menina, tem essa tristeza
do ar onde houve antes uma rosa;
eu estou aqui, rodeado de tua ausência,
feito de amor e sozinho como um homem.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
''ELEGIA PURA''
A Jaime Duarte French
Ainda me dura a melancolia.
Lá nos confins cantava um galo
aumentando o silêncio pérola e malva
em que a estrela azul se dissolvia.
Recendia a céu, a ela, a poesia.
Sem voltar a olhar fui-me a cavalo
Amadureciam as frutas e suas frutas.
A ela e a jardim secreto, recendia.
Fui-me, fui-me como por um romance
onde fôra o donzel que nunca volta. . .
a casa ali ficou com sua janela,
afundada na ausência, ao pé da alva.
Flutuou sua mão e me fui a cavalo.
Ainda me dura a melancolia.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
Ainda me dura a melancolia.
Lá nos confins cantava um galo
aumentando o silêncio pérola e malva
em que a estrela azul se dissolvia.
Recendia a céu, a ela, a poesia.
Sem voltar a olhar fui-me a cavalo
Amadureciam as frutas e suas frutas.
A ela e a jardim secreto, recendia.
Fui-me, fui-me como por um romance
onde fôra o donzel que nunca volta. . .
a casa ali ficou com sua janela,
afundada na ausência, ao pé da alva.
Flutuou sua mão e me fui a cavalo.
Ainda me dura a melancolia.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
''GUALANDAY''
A Gonzalo Ariza
Gualanday tem a água que sobe a escada
da palmeira e em cega frescura nusical
-coração dos cocos – palpita na fonteira
da nuvem e da estrela compulso de cristal.
Tem o suco redondo do sol que a primeira
fruta dá, na bandeja branca do laranjal
e a cana de açúcar onde está prisioneira
a doçura qual uma donzela vegetal.
Há uma menina. Leva a ameixa sorridente
do beijo e vai mordendo a terra quente
numa nêspera. O ar, tepidamente, a encrespar
a verde brisa enfribrada de bambuzal se detém;
e é uma égua jovem a manhã que vem
com as crinas de sol ao vento e ao palmar.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
Gualanday tem a água que sobe a escada
da palmeira e em cega frescura nusical
-coração dos cocos – palpita na fonteira
da nuvem e da estrela compulso de cristal.
Tem o suco redondo do sol que a primeira
fruta dá, na bandeja branca do laranjal
e a cana de açúcar onde está prisioneira
a doçura qual uma donzela vegetal.
Há uma menina. Leva a ameixa sorridente
do beijo e vai mordendo a terra quente
numa nêspera. O ar, tepidamente, a encrespar
a verde brisa enfribrada de bambuzal se detém;
e é uma égua jovem a manhã que vem
com as crinas de sol ao vento e ao palmar.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
''ES MELANCOLÍA''
Te llamarás silencio en adelante.
Y el sitio que ocupabas en el aire
se llamará melancolía.
Escribiré en el vino rojo un nombre:
el tu nombre que estuvo junto a mi alma
sonriendo entre violetas.
Ahora miro largamente, absorto,
esta mano que anduvo por tu rostro,
que soñó junto a ti.
Esta mano lejana, de otro mundo
que conoció una rosa y otra rosa,
y el tibio, el lento nácar.
Un día iré a buscarme, iré a buscar
mi fantasma sediento entre los pinos
y la palabra amor.
Te llamarás silencio en adelante.
Lo escribo con la mano que aquel día
iba contigo entre los pinos.
Eduardo Carranza
[Tela de Pieter Code]
Y el sitio que ocupabas en el aire
se llamará melancolía.
Escribiré en el vino rojo un nombre:
el tu nombre que estuvo junto a mi alma
sonriendo entre violetas.
Ahora miro largamente, absorto,
esta mano que anduvo por tu rostro,
que soñó junto a ti.
Esta mano lejana, de otro mundo
que conoció una rosa y otra rosa,
y el tibio, el lento nácar.
Un día iré a buscarme, iré a buscar
mi fantasma sediento entre los pinos
y la palabra amor.
Te llamarás silencio en adelante.
Lo escribo con la mano que aquel día
iba contigo entre los pinos.
Eduardo Carranza
[Tela de Pieter Code]
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
''AZUL DE TI''
Pensar en ti es azul, como ir vagando
por un bosque dorado al mediodía:
nacen jardines en el habla mía
y con mis nubes por tus sueños ando.
Nos une y nos separa un aire blando,
una distancia de melancolía;
yo alzo los brazos de mi poesía,
azul de ti, dolido y esperando.
Es como un horizonte de violines
o un tibio sufrimiento de jazmines
pensar en ti, de azul temperamento.
El mundo se me vuelve cristalino,
y te miro, entre lámparas de trino,
azul domingo de mi pensamiento.
Eduardo Carranza
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