Seja bem-vindo. Hoje é

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

''A Dream''


In visions of the dark night
I have dreamed of joy departed--
But a waking dream of life and light
Hath left me broken-hearted.

Ah! what is not a dream by day
To him whose eyes are cast
On things around him with a ray
Turned back upon the past?

That holy dream--that holy dream,
While all the world were chiding,
Hath cheered me as a lovely beam
A lonely spirit guiding.

What though that light, thro' storm and night,
So trembled from afar--
What could there be more purely bright
In Truth's day-star?

Edgar Allan Poe

''O LAGO''


A...

No verdor de meu anos, meu destino
foi só habitar, de todo o vasto mundo,
uma região que amei mais do que todas,
tanto encantava a solidão de um lago
selvagem, que cercavam negras rochas
e altos pinheiros, dominando tudo.

Mas quando a Noite, em treva, amortalhava
esse recanto e o mundo, e o vento místico
chegava, murmurando melopéias,
então, ah! sempre em mim se despertava
o terror desse lago solitário.

Não era, esse, um terror, porém, de espanto,
mas um delicioso calafrio,
sentimento que as jóias mais preciosas
não inspiram , nem fazem definir;
nem mesmo o amor, nem mesmo o TEU amor.

Reinava a Morte na água envenenada
e seu abismo era um sepulcro digno
de quem pudesse ali achar consolo
para seus pensamentos taciturnos,
de quem a alma pudesse, desolada,
no torvo lago ter um Paraíso.

Edgar Allan Poe
In Poesia e Prosa
Traduzido por Oscar Mendes e
Milton Amado

'' SÓ''


Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.


Allan Poe

'Um sonho dentro de um sonho'


Tome este beijo sobre a têmpora
e, partindo de ti agora,
muito a dizer nesta franca hora
Você não está errado, quem diria
que meus sonhos têm sido o dia;
Ainda se a esperança fosse um açoite
em um dia, ou numa noite,
numa visão, ou em ninguém
É isso então o que está aquém?
Tudo o que vejo, tudo o que suponho
É só um sonho dentro de um sonho.

As ondas quebram e fico ao meio
de uma praia atormentada
e eu seguro em minhas mãos
uns grãos de areia dourada -
Quão poucos! E como se vão
Pelos meus dedos para o nada,
enquanto eu choro, enquanto eu choro!
Ó Deus! Eu Vos imploro:
Não posso mantê-los em minha teia?
Ó Deus! Posso eu proteger
das duras ondas um grão de areia?
Será que tudo o que vejo e suponho
É só um sonho dentro de um sonho?


Edgar Allan Poe
Tradução: Leonardo Dias

[Tela de Josephine Wall]

'EDGAR ALLAN POE'


Edgar Allan Poe
 (nascido Edgar Poe; Boston, 19 de Janeiro de 1809 - Baltimore, 7 de Outubro de 1849)
 foi um autor, poeta, editor e crítico literário americano, fez parte do movimento romântico americano.Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido a tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difícil.

Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele freqüentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado, depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).

Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova York. Em Baltimore, em 1835, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em Janeiro de 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém morreu antes que pudesse ser produzido. Em 7 de Outubro de 1849, aos 40 anos, Poe morreu em Baltimore; a causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças do coração, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.

Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

  Poe foi enterrado originalmente na parte de trás do cemitério de Westminster, sem uma lápide. A da imagem marca hoje em dia o lugar original.

'OBRAS'


A Dream (1827)
    A Dream Within a Dream (1827)
    Dreams (1827)
    Tamerlane (1827)
    Al Aaraaf (1829)
    Alone (1830)
    To Helen (1831)
    Israfel (1831)
    The City in the Sea (1831)
    To One in Paradise (1834)
    The Conqueror Worm (1837)
    The Narrative of Arthur Gordon Pym (1838)
    Silence (1840)
    A Descent Into the Maelstrom (1841)
    Tell Tale Heart (1843)
    Lenore (1843)
    O Gato Preto (1843)
    Dreamland (1844)
    The Purloined Letter (1844)
    The Divine Right of Kings (1845)
    The Raven (1845)
    The Philosophy of Composition
    Ulalume (1847)
    Eureka (1848)
    Annabel Lee (1849)
    The Bells (1849)
    Eldorado (1849)
    Eulalie (1850)
    The Valley Of The Unrest
    Bridal Ballad
    The Sleeper
    The Coliseum
    Sonnet:To Zante
    To One in Paradise
    The Haunted Palace
    Romance
    FairyLand
    Song
    To F-
    To -
    To F-s S.O-d
    To The River-
    The Lake.To-
    The Bells
    A Valentine
    An Enigma
    To --
    To M.L.S.-
    To My Mother
    For Annie
    The pit and the pendulum (1842)
    William Wilson (1839)
    Berenice (conto)
    Morella (conto)
    The Oblong Box (conto)
    The Man of The Crowd (conto)
    The Assignation (conto)
    The Oval Portrait (conto)
    The King Pest (conto)
    The Gold-Bug (conto)
    Ms.Found In a Bottle (conto)
    The Balloon Hoax (conto)
    Metzengerstein
    Ligeia (conto)
    "Thou Art the Man" (conto)
    The Spectacles (conto)
    The Premature Burial (conto)
    A Tale of the Ragged Mountains (conto)
    The Island of the Fay (conto)
    The Colloquy of Monos and Una (conto)
    The Conversation of Eiros and Charmion (conto)
    A Queda da Casa de Husher (conto) (1839)
    Os Assassinatos da Rua Morgue (conto) (1841)
    A Máscara da Morte Rubra (conto) (1842)
    O Mistério de Marie Rogêt (conto) (1842)
    O Poder das Palavras (conto) (1845)
    O Demônio da Perversidade (conto) (1845)
    The System of Doctor Tarr and Professor Fether (conto) (1845)
    Os Fatos que Envolveram o Caso Mr.Valdemar (conto) (1845)
    A Esfinge (conto) (1846)
    The Cask of Amontillado (conto) (1846)
    The Domain of Arnheim (conto) (1847)
    Mellonta Tauta (conto) (1849)
    Hop-Frog ou Os Oito Orangotangos Acorrentados (conto) (1849)
    Von Kempelen and His Discovery (conto) (1849)
    X-ing a Paragrab (conto) (1849)
    A Cabana de Landor (conto) (1849)

No dia 3 de Outubro de 1849, Poe foi encontrado nas ruas de Baltimore, com roupas que não eram as suas, em estado de delirium tremens, e levado para o Washington College Hospital, onde veio a morrer apenas quatro dias depois. Poe nunca conseguiu estabelecer um discurso suficientemente coerente, de modo a explicar como tinha chegado à situação na qual foi encontrado. As suas últimas palavras teriam sido, de acordo com determinadas fontes, "Lord, please, help my poor soul", em português, "Senhor, por favor, ajude minha pobre alma."

Nunca foram apuradas as causas precisas da morte de Poe, sendo bastante comum, apesar de incomprovada, a ideia de a causa do seu estado ter sido embriaguez. Por outro lado, muitas outras teorias têm sido propostas ao longo dos anos, de entre as quais: diabetes, sífilis, raiva, e doenças cerebrais raras.


''O POETA SE DESPEDE DAS MOÇAS''

A Antonio Oviedo


Jóvens de ternissima cintura
que andais o mesmo que a melodia
e que passeando ides pelos verdes
como o jasmim que na manhã ardia.

Moças que emprestais arquitetura
trêmula aos ares noite e dia,
e sustentais com vossa mão pura
o firmamento da poesia,

adoráveis de fruta e veludo
onde a terra começa a ser de céu,
onde o céu é aroma, todavia;

deixai que ao ir-me da primavera
volte a mirar-vos pela última vez
e vos dê esta rosa de melancolia.

Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

'TEMPO DE ESQUECER'

Sabes que sou como um rio abandonado
no sedento leito do esquecimento,
e a tua vã lembrança tão unido
como a água ao seu céu refletido;


Sabes que sou como o tempo desfolhado
na mão final do que foi perdido
e, como um horizonte proibido,
me envolves o sonho vigilante;


Sabes que sou como o ar, destinado
ao vôo de tuas aves, som ferido
surdidor rouxinol e enamorado:


Sobre este coração crepuscular
e por turvas marés assaltado,
tornas-te nuvem voando para o esquecimento.


Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

''DOURADA AMIGA''

A Manuel Halcón


Ao passar por minha, alma
a tarde se faz música.
Já sua vencida graça
se precipita em meu ombro:
e me vêm desejos
de tomar-lhe as mãos
e falar-lhe como falara
a uma amiga dourada.


Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

''IMAGEM QUASE PERDIDA''


És como a luz alta e delgada.
Como o vento és clara sem o saber.
Vacila tua atitude como a tarde
suavemente inclinada sobre o mundo

És feita de sonhos esquecidos
e te esqueço logo, como a um sonho;
meu coração te busca como a fumaça
busca a altura e nela morre.

Como uma trepida flor te leva o dia
Presa entre seus lábios. És alta,
azul, delgada e reta como um silvo.
Recordo-te, de imediato, como a um sonho.


Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

''CELESTE INSTANTE''


Na minha mão ansiosa
um instante tua mão
morna e celeste.

O olhar do tato
olhou seu aroma
de cinco pétalas.

Levou a corrente
do meu sangue, a forma,
a pressão de tua mão
morna e celeste.

A terra de minha mão
foi num instante enlunada
e para sempre.

E num instante sentiram
meu coração, minha fronte,
o roçar de tua mão
morna e celeste.

E fugiste para à tarde
como um vento de flores
e de sorriso.

Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

'NADA MAIS'

A Rafael Azula Barrera


Resta-me a alva cheia
de presenças azuis
e a gota do tempo
sobre o cristal do sonho.

Resta-me o curvo rio
onde apóia sua fronte
a lua enquanto canta
com voz delgada e branca.

Resta-me uma janela
com contorno de sorriso
e olhares, semeando,
terna, sua trepadeira.

E a espiga da alma,
sua dourada verdade,
querendo ser estrela:
já quieta claridade.

Com os braços abertos
resta-me o horizonte,
e aquela margarida
morta com seu segredo.

E um amor, um amor
mais alto que meu canto,
que me torna celeste
e me ascende a cálida
guitarra do sangue.

Resta-me essa cidade
de sinos, afundada
no meu fechado mar,
e um doce caracol
que me dá seu rumor
achado nesta humana
praia das palavras.

Restam-me, vagamente,
a borboleta diáfana
da luz, uma tarde
limitada de música,
aquele perfil de lua
e uma voz que me chama
coberta de orvalho.

E o rumor cristalino,
da hora, crescendo
surdidor rumo ao frio
espaço da morte.


Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

''DOMINGO''

Um domingo sem ti, de ti perdido,
é como um túnel de paredes cinzas
aonde vou iluminado pelo teu nome;
é uma noite clara sem sabê-lo
ou uma segunda-feira disfarçada de domingo;
é como um dia azul sem tua permissão.
Chove neste poema, tu o sentes
com tua alma vizinha do cristal;
chove tua ausência como uma água triste
e azul sobre minha fronte desterrada.

Compreendi como uma palavra
pequena, igual a um alfinete de lua
ou um leve coração de mariposa,
alçar pode muralhas infinitas,
matar uma manhã, de repente,
evaporar azuis e jardins,
esmagar um dia como se fora um lírio,
transformar estrelas em grãos de sal.

Compreendi como uma palavra
da matéria azul das espadas
e com aguda vocação de espinho
pode estar na luz como uma ferida
que nos dói no centro da vida.

Chove neste poema e o domingo
gira como um longínquo carrossel;
tão perto estás de mim que não te vejo,
feita de minhas palavras e de meu sonho.

Penso em ti além da distância,
com tua voz que me inventa os domingos
e o sorriso como uma vaga pétala
caindo do teu rosto sobre minh’alma.

Com sua folha voando para a noite,
raiado de garoa e desencanto,
este domingo sem teu visto
chega como uma carta equivocada.

A tarde, menina, tem essa tristeza
do ar onde houve antes uma rosa;
eu estou aqui, rodeado de tua ausência,
feito de amor e sozinho como um homem.

Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

''ELEGIA PURA''

A Jaime Duarte French

Ainda me dura a melancolia.
Lá nos confins cantava um galo
aumentando o silêncio pérola e malva
em que a estrela azul se dissolvia.

Recendia a céu, a ela, a poesia.
Sem voltar a olhar fui-me a cavalo
Amadureciam as frutas e suas frutas.
A ela e a jardim secreto, recendia.

Fui-me, fui-me como por um romance
onde fôra o donzel que nunca volta. . .
a casa ali ficou com sua janela,

afundada na ausência, ao pé da alva.
Flutuou sua mão e me fui a cavalo.
Ainda me dura a melancolia.

Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

''GUALANDAY''

A Gonzalo Ariza

Gualanday tem a água que sobe a escada
da palmeira e em cega frescura nusical
-coração dos cocos – palpita na fonteira
da nuvem e da estrela compulso de cristal.

Tem o suco redondo do sol que a primeira
fruta dá, na bandeja branca do laranjal
e a cana de açúcar onde está prisioneira
a doçura qual uma donzela vegetal.

Há uma menina. Leva a ameixa sorridente
do beijo e vai mordendo a terra quente
numa nêspera. O ar, tepidamente, a encrespar

a verde brisa enfribrada de bambuzal se detém;
e é uma égua jovem a manhã que vem
com as crinas de sol ao vento e ao palmar.

Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

''ES MELANCOLÍA''

Te llamarás silencio en adelante.
Y el sitio que ocupabas en el aire
se llamará melancolía.

Escribiré en el vino rojo un nombre:
el tu nombre que estuvo junto a mi alma
sonriendo entre violetas.

Ahora miro largamente, absorto,
esta mano que anduvo por tu rostro,
que soñó junto a ti.

Esta mano lejana, de otro mundo
que conoció una rosa y otra rosa,
y el tibio, el lento nácar.

Un día iré a buscarme, iré a buscar
mi fantasma sediento entre los pinos
y la palabra amor.

Te llamarás silencio en adelante.
Lo escribo con la mano que aquel día
iba contigo entre los pinos.

Eduardo Carranza

[Tela de Pieter Code]


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A TROCA DO PNEU


Estou sentado de costas para a vala.
O motorista troca o pneu.
Não amo o país de onde venho
Não amo o país para onde vou.
Por que olho a troca do pneu
Com impaciência?
.

Bertold Brecht 

JAMAIS TE AMEI TANTO




Jamais te amei tanto, ma soeur
Como ao te deixar naquele pôr do sol
O bosque me engoliu, o bosque azul, ma soeur
Sobre o qual sempre ficavam as estrelas pálidas
No Oeste.
Eu ri bem pouco, não ri, ma soeur
Eu que brincava ao encontro do destino negro -
Enquanto os rostos atrás de mim lentamente
Iam desaparecendo no anoitecer do bosque azul.
Tudo foi belo nessa tarde única, ma soeur
Jamais igual, antes ou depois -
É verdade que me ficaram apenas os pássaros
Que à noite sentem fome no negro céu.


Bertold Brecht 

VOU LHES DIZER


Eu me dizia: pra que falar com eles?
Se compram o saber, é pra revendê-lo.
O que querem, é encontrar o saber bem barato
Para que eles possam revendê-lo com lucro.
Então por quê eles quereriam saber daquilo que vai
contra a lei da oferta e da procura?

Eles querem vencer, e não se interessam
por aquilo que prejudica a vitória.
Eles não querem ser oprimidos,
querem oprimir.
Eles não querem o progresso,
querem ser os primeiros.

Eles se submetem a qualquer coisa, contanto
que se lhes prometa que eles farão a lei.
Eles se sacrificam
pra que não se ponha abaixo
o altar dos sacrifícios.

Eu pensei: o que eu vou dizer a eles?
E depois decidi: é isso que eu vou dizer.


Bertold Brecht 

PRECISAMOS DE VOCÊ



Aprende - lê nos olhos,
lê nos olhos - aprende
a ler jornais, aprende:
a verdade pensa
com tua cabeça.
Faça perguntas sem medo
não te convenças sozinho
mas vejas com teus olhos.
Se não descobriu por si
na verdade não descobriu.
Confere tudo ponto
por ponto - afinal
você faz parte de tudo,
também vai no barco,
"aí pagar o pato, vai
pegar no leme um dia.
Aponte o dedo, pergunta
que é isso? Como foi
parar aí? Por que?
Você faz parte de tudo.
Aprende, não perde nada
das discussões, do silêncio.
Esteja sempre aprendendo
por nós e por você.
Você não será ouvinte
diante da discussão,
não será cogumelo
de sombras e bastidores,
não será cenário
para nossa ação .

Bertold Brecht 

DE QUE SERVE A BONDADE


1
De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados,ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?

De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?

2
Em vez de serem apenas bons,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor:que a torne supérflua!

Em vez de serem apenas livres,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!

Em vez de serem apenas razoáveis,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio.


Bertold Brecht 

ESSA CONFUSÃO BABILÔNICA



Essa confusão babilônica das palavras
Vem de que são a língua
De decadentes.
O fato de não mais os entendermos
Vem de que não mais adianta
Entendê-los.
De que adianta
Contar aos mortos como teriam
Vivido melhor. Não procure mover
Um morto enrijecido
Fazê-lo perceber o mundo.
Não brigue
Com aquele pelo qual
Os jardineiros já esperam
Melhor ser paciente.

Recentemente quis
Contar-lhes com astúcia
A história de um comerciante de trigo
De Chicago. Em meio à palestra
Minha voz me deixou de repente
Pois eu havia
Subitamente percebido
Que esforço me custaria
Contar essa história aos ainda não nascidos
Que no entanto nascerão
E viverão em épocas bem diferentes
E felizardos! não mais poderão
Compreender o que é um comerciante de trigo
Assim como é entre nós.

Então comecei a explicar isso a eles. E no espírito
Parecia-me que falava durante sete anos
Mas deparei somente
Com um silencioso balançar da cabeça
Em meus ouvintes não-nascidos.
Então percebi que
Falava de algo
Que um homem não pode entender.

Eles me disseram: Vocês deveriam
Ter mudado suas casas, sua comida
ou vocês. Diga-nos, não havia
Um modelo para vocês, mesmo que
Somente em livros de épocas anteriores
Modelos de homens, desenhados ou
Descritos, pois nos parece que
O seu motivo era mesquinho
Fácil de ser mudado, quase qualquer um
Podia percebê-lo como falso, desumano e sem igual.
Não havia um velho
Plano simples, pelo qual se
Orientassem em sua confusão?

E disse: Os planos existiam
Mas vejam, eles estavam cinco vezes
Cobertos com novos signos, ilegíveis
O modelo alterado cinco vezes, conforme
Nossa imagem degradada, de modo que
Nesses relatos mesmo nossos pais
Assemelhavam-se apenas a nos.
Com isso perderam o ânimo e me despacharam
Com o lamento displicente
De gente feliz.


Bertold Brecht 
Tradução Paulo César de Souza


NADA É IMPOSSÍVEL MUDAR



"Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.

E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural

nada deve parecer impossível de mudar."


Bertold Brecht 

ELOGIO DA DIALÉTICA



A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o começo
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos
Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã!


Bertold Brecht 


O BALANÇO




Vejo bem esse sistema.
Que a gente aliás conhece há muito, de fora,
mas cujo mecanismo ainda é ignorado.
Alguns — poucos — estão sentados no alto
e um grande número em baixo.
E os de cima gritam: Subam,
pra que fique todo o mundo no alto!
Mas olhando de mais perto, a gente percebe
alguma coisa de obscuro que parece um caminho.
Na verdade é uma prancha,
e se vê nitidamente
que se trata de uma gangorra.
Todo o sistema é um jogo de balanço,
cujas extremidades dependem uma da outra.
E estes só estão em cima
porque os outros etão todos embaixo
e enquanto eles permanecerem aí.
Porque se eles saíssem do seu lugar
e começassem a subir
os primeiros também teriam que sair do seu lugar.
De forma que é fatal que eles desejem
que os outros, por toda a eternidade
fiquem embaixo sem poder subir.
E é necessário também que os de baixo sejam mais
numerosos ou a prancha vacilaria, já que é uma
gangorra.



Bertold Brecht 

LISTA DE PREFERÊNCIAS



Alegrias, as desmedidas.
Dores, as näo curtidas.

Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequíveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.

Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.

Artes, as näo rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, outubro.

Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.

Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.



Bertold Brecht
(Tradução de Paulo César de Souza) 


AOS QUE VIERAM DEPOIS DE NÓS


Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

Bertold Brecht 











BERTHOLD BRECHT



Nascido Eugen Berthold Friedrich Brecht 

Nascimento=Augsburg, 10 de Fevereiro de 1.898 —Baviera 
Morte=14 de Agosto de 1.956-Berlim
foi um influente dramaturgo, poeta e encenador alemão do século XX.

Brecht estudou medicina e trabalhou como ordenança num hospital em
 Munique durante a  Primeira Grande  Guerra. Filho da burguesia,
 ele sofreu, como todos na Alemanha, a sensação de desolamento de
 encarar um país completamente destruído pela Primeira Guerra
 Mundial. Depois da guerra mudou-se para Berlim, onde o influente
 crítico, Herbert Ihering, lhe chamou a atenção para a apetência
 do público pelo teatro moderno. Já em Munique, as suas primeiras
 peças (Baal e Trommeln in der Nacht) foram levadas ao palco e
 Brecht conheceu Erich Engel com quem veio a trabalhar até ao 
fim da sua vida. Em Berlim, a peça Im Dickicht der Städte,
 protagonizado  por Fritz Kortner e dirigido por Engel, tornou-se
 no seu primeiro sucesso.

O Totalitarismo surge como a força renovadora que não só vai
 reerguer o país, como  traz a missão de reviver o Sacro Império
 Romano-Germânico. Mas ao mesmo tempo chegam influências da recém
 formada União Soviética, com sua bem-sucedida implantação de um
 regime socialista, o que significava esperança para  um povo
 sofrido como o da Alemanha naquele período. É a este último grupo
 que Brecht vai  se unir, na ânsia de debelar seu desespero 
existencial. No entanto, depois de  Hitler eleito em 1933 Brecht 
não estava totalmente seguro na Alemanha Nazista, exilando-se na 
Áustria, Suíça, Dinamarca, Finlândia, Suécia Inglaterra, Rússia
 e finalmente nos Estados Unidos. Recebeu o Prêmio Lênin da 
Paz em 1954.


Obra:

Seus principais antecessores foram Constantin Stanislavski,
 Meyerhold e Piscator, em ordem cronológica. Stanislavski é o
 primeiro revolucionário, e suas teorias  servem de base para o
 trabalho de Meyerhold e seu  "método biomecânico" cuja  
principal intenção é fazer com que o ator exprima as nuanças
 psicológicas de seu personagem através de uma "máscara
 pantomímica" e que já desenvolve a técnica  de comentar o 
texto  através do gesto, inspiração asiática evidente no teatro 
de Brecht. A contribuição de Piscator é a noção de  um teatro
 propagandístico e  educativo. É ele que abre caminho para o
 verdadeiro teatro épico teorizado e  executado por Bertold 
Brecht. Importante influência tiveram também seus estudos
 marxistas e sociológicos.

Podem ser distinguidas duas principais razões para o Teatro
 Épico de Brecht: a  primeira seria a concepção  marxista do
 homem, um ser que deve ser entendido  observando-se o 
conjunto de todas as relações sociais de que participa. Para 
Brecht, a forma épica é a única capaz de apresentar as 
determinantes sociais das  relações inter-humanas. A segunda
 razão é o seu intuito didático, a necessidade  de um "palco
 científico" capaz de desmistificar as relações da sociedade,
 esclarecendo o público e suscitando a ação transformadora.

Algumas de suas principais obras são: Um Homem é um Homem,
 em que cresce a idéia  do homem como um  ser transformável,
 Mãe Coragem e Seus Filhos, sobre a guerra  dos 30 anos, 
escrita no exílio no começo da  Segunda Guerra Mundial e A
 Vida de  Galileu, drama biográfico com o qual Brecht 
encontra definitivamente  o caminho  do teatro dialético.
 Afirma Bernard Dort a respeito deste último: "... Galileu
 foi escrita, pelo  menos originalmente, para servir de
 exemplo e de conselho  aos sábios alemães tentados a abdicar
 seu  saber nas mãos dos chefes nazistas".
 Além dessas escreveu várias novelas como: Mr Puntila and
His  Man Matti, The Resistible Rise of Arturo Ui, O Círculo
 de Giz Caucasiano, A boa Pessoa Sezuan.


Dados Wikipédia






''AZUL DE TI''


Pensar en ti es azul, como ir vagando
por un bosque dorado al mediodía:
nacen jardines en el habla mía
y con mis nubes por tus sueños ando.

Nos une y nos separa un aire blando,
una distancia de melancolía;
yo alzo los brazos de mi poesía,
azul de ti, dolido y esperando.

Es como un horizonte de violines
o un tibio sufrimiento de jazmines
pensar en ti, de azul temperamento.

El mundo se me vuelve cristalino,
y te miro, entre lámparas de trino,
azul domingo de mi pensamiento.

Eduardo Carranza

''EDUARDO CARRANZA''

Eduardo Carranza Fernández

Nasceu em Apiay, nos Lhanos Orientais da Colômbia, a 23 de Julho de 1913.
Morreu no dia 13 de fevereiro de 1985 em Bogotá.-Colômbia

Fez estudos de magistério na Escola Normal de Bogotá.
Em 1939, criou, unido a vários poetas - Jorge Rojas, Carlos Martin,
entre outros - o movimento literário denominado " Piedra y Cielo " ( Pedra e Céu), de grande importância renovadora na poesia colombiana.

Como diplomata, viveu no Chile de 1945 a 1947 e na Espanha, de 1951 a 1957, onde obteve, especialmente neste último país, ressonantes êxitos como poeta, catedrático e conferencista. Exerceu o magistério durante toda sua vida, desde o de primeiro grau até a cátedra de Literatura Colombiana e Espanhola na Universidade dos Andes de Bogotá, na Universidade Central de Madri e no Seminário Andrés Bello.

Foi Diretor da Biblioteca Nacional da Colômbia e , posteriormente, Diretor das Bibliotecas Públicas de Bogotá.

Como escritor,além de sua obra poética , é autor de numerosos ensaios sobre temas de literatura, prosa política e notas jornalísticas.
Como tradutor, publicou livros de versões e recriações de Remy de Gourmont e de Tagore.

 
-En español-

Poeta llanero (Apiay, Meta, julio 23 de 1913 - Bogotá, febrero 13 de 1985).

Eduardo Carranza Fernández

rompió con la poesía modernista afrancesada que se escribía en Colombia en las primeras décadas del siglo XX, y regresóa lo hispánico clásico y moderno.
Asoció siempre a su poesía el recuerdo de su remota provincia llanera, y fue
capaz de pasar de una poesía transparente y obvia a una poesía madura y de alto vuelo hacia el final de su vida.

Realizó estudios en la Escuela Normal Central de Institutores de Bogotá, fue profesor de literatura en colegios y universidades.

En 1936 publicó su primer libro, titulado Canciones para iniciar una fiesta, en el cual
reunió la poesía de sus veinte años. Dirigió publicaciones tales como la Revista del Colegio Mayor de Nuestra Señora del Rosario, la Revista de las Indias, el Suplemento
literario de El Tiempo y la Revista de la Universidad de los Andes. Entre 1945 y 194i fue agregado cultural de la Embajada de Colombia en Chile; entre 1948 y 1951 se
desempeñó como director de la Biblioteca Nacional de Colombia; y entre 1951 y 1958 volvió a ser agregado cultural, esta vez en Madrid.

En 1952 presidió el primer Congreso de Poesía, en Segovia y en compañía de Carlos
Riba y Vicente Aleixandre. En 1953 volvió a presidir este congreso, esta vez en Salamanca y en compañía de Gerardo Diego, Dámaso Alonso y Giuseppe Ungaretti.

Fue miembro de número de la Academia de la Lengua y desde 1963 dirigió la iblioteca del Distrito Especial de Bogotá. En 1984 el gobierno nacional, encabezado por el presidente Belisario Betancur, lo nombró embajador itinerante en los países de
habla española; y ese mismo año Carranza clausuró, con Léopold Sédar Senghor y Jorge Luis Borges, el VII Congreso Mundial de Poesía, en Marruecos. Fue profesor de literatura hispanoamericana y colombiana en las Universidades de Chile, Central de Madrid y de Salamanca; y dictó cursos y conferencias y leyó sus poemas en diversos recintos españoles. 


 Sobre a obra de Carranza foi dito:

“A lírica de Carranza caracteriza-se por um deslumbrante dom metafórico, de origem intuitiva, através do qual cristaliza todas as coisas do mundo e do ser, em uma transparente sinfonia. Ninguém como ele possui o segredo das formas aéreas, translúcidas, sem perder algo assim como uma força profunda e poderosa que brota da terra, do amor, dos heróis, da dor, da morte, enfim, de todos os grandes temas humanos.” 

Livros principais:

Canciones para iniciar una fiesta,
Seis elegías y un himno,
Ella, los días y las nubes,
Azul de ti,
Diciembre azul,
El olvidado.

''Bétula''


As gavinhas do sonho de um poeta
não são mais finas ao ramificar-se,
nem se inclinam com mais leveza ao vento,
nem são mais nobres no galgar o azul.

Terna e tenra, e superentrelaçada,
deixas que pendam quase em desalento
tuas ramagens claras e alongadas
a cada sopro ocasional do vento.

Assim pendente, flexível e mansa
com os teus delicados arrepios,
és para mim o amor da juventude
terno e puro - em feliz alegoria.

Hermann Hesse
In 'Andares'
Tradução de Geir Campos

''NOITE''

Acabo de apagar a minha vela:
pela janela aberta a noite vem,
me abraça com doçura, e me permite
ser amigo e irmão dela.

Sofremos ambos da mesma saudade:
cheio de augúrios nosso sonho vai,
e cochichamos sobre velhos tempos
em casa de nosso pai.

Hermann Hesse

''ANDARES''


Como emurchece toda flor, e toda idade
juvenil cede à senil - cada andar da vida
floresce, qual a sabedoria e a virtude,
a seu tempo, e não há de durar para sempre.
A cada chamado da vida o coração
deve estar pronto para a despedida e para
novo começo, com ânimo e sem lamúrias,
aberto sempre para novos compromissos.
Dentro de cada começar mora um encanto
que nos dá forças e nos ajuda a viver.

Devemos ir contentes, de um lugar a outro,
sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria:
não nos quer atados, o espírito do mundo
- quer que cresçamos , subindo andar por andar.
Mal a um tipo de vida nos acomodamos
e habituamos, cerca-nos o abatimento.

Só quem se dispõe a partir e a ir em frente
pode escapar à rotina paralisante.
É bem possível que a hora da morte ainda
de novos planos ponha-nos na direção:
para nós, não tem fim o chamado da vida...
Saúda, pois, e despede-te , coração!

Hermann Hesse

''ROSA BRANCA AO CREPÚSCULO''

Inclinas triste o rosto
nas folhas, para a morte,
respiras luz fantástica
e emites sonhos pálidos.

Íntima como um canto,
à última luz flutua
no quarto, a tarde toda,
a doce fragrância tua.

No inefável se engaja
tua alma temerosa,
e vai rindo e morrendo
em meu peito, irmã rosa.

Hermann Hesse

''UMA VEZ, HÁ MIL ANOS''

Inquieto e com vontade de viajar,
ao acordar de um sonho esfacelado,
ouço dentro da noite a melodia
que os meus bambus estão a sussurrar.

Em vez de me aquietar, de me deitar,
eu me sinto arrancar dos velhos trilhos
a me precipiar, a ir pelo ar
em vôo picado rumo ao infinito.

Uma vez, há mil anos, existiu
uma terra natal e um jardim onde
no canteiro onde se enterravam pássaros
a neve enrijecia os açafrões.

Quisera eu me estender em vôo de pássaro,
além do deserto que me enclausura,
até lá - até aqueles tempos cujo
ouro até hoje para mim fulgura.


Hermann Hesse

''RAMO EM FLOR''

Para cá e para lá
sempre se inclina ao vento o ramo em flor,
para cima e para baixo
sempre meu coração vai feito uma criança
entre ambições e renúncias.
Até que as flores se espalham
e o ramo se enche de frutos,
até que o coração farto de infância
alcança a paz
e confessa: de muito agrado e não perdida
foi a inquieta jogada da vida.

Hermann Hesse

'NENHUM SOSSEGO'


Alma, pássaro assustado,
tu sempre perguntarás:
quando, após tantos maus dias,
vem a calma, vem a paz?

Mas sei: tão logo tenhamos
calmos dias sob a terra,
com saudade hás de fazer
de cada dia uma praga.

E, apenas salva, estarás
cansando-te em outras penas:
e impaciente arderás como
a mais jovem das estrelas.

Hermann Hesse

''JOVEM NOVIÇO NUM MOSTEIRO ZEN - II''

Seja tudo ilusão e fantasia,
permanecendo a verdade indizível:
entretanto, a montanha me contempla
com seu contorno bem reconhecível.

Cervo e corvo, rosa rubra e lilás,
azul de mar e mundo variegado:
se te concentras, tudo se desfaz
no grande Uno amorfo e inominado.

Recolhe-te ao mais fundo do teu ser
e assim aprende a ver, aprende a ler!
Concentra-te ... e o mundo faz-se aparência.
Concentra-te ... e a aparência faz-se essência.


Hermann Hesse

''JOVEM NOVIÇO NUM MOSTEIRO ZEN - I''

A mansão de meu pai levanta-se no sul
entre o calor do sol e o ar do mar azul:
de noite estou sonhando,às vezes, com meu lar,
e as lágrimas me molham para me acordar.

Será que os meus colegas percebem também
o que há comigo? Assustam-me com seu desdém.
Idosos monges roncam como uns animais;
só eu. Yu Wang, esfrio-me e não durmo mais.

Um dia, um dia eu ainda pego oo meu bastão,
calço as sandálias, e não fico aqui mais não:
por u milhar de milhas peregrinarei
de volta ao lar e à sorte que eu mesmo deixei.

Mas quando o mestre fita o olhar de tigre em mim
a penetrar-me, o meu destino eu vejo enfim:
sinto-me todo ardendo e todo me gelando,
envergonho-me, tremo, fico e vou ficando.


Hermann Hesse

''Desalento''




Sonâmbulo tateio entre florestas e precipício,
Ao meu redor um círculo de magia brilha,
Sem considerar se solicitado ou injuriado,
Sigo fiel a ordem, minha trilha.

Quantas vezes a realidade me despertou,
Em que viveis e a ela me ordenou!
Desiludido e assustado nela ficava
Porém dela logo me esgueirava.

Oh! Cálida pátria que me tomais,
Oh! Sonho de amor cruelmente desperto
Como a água que volta ao mar
Para ti reflui meu ser, por caminho incerto.

Às ocultas, fontes me guiam como um canto,
Aves do paraíso agitam suas brilhantes penas;
Novamente ressoa da minha infância o acalanto,
No dourado emaranhar e zumbir das abelhas
Junto da mãe me reencontro em pranto.


Hermann Hesse
In Caminhada

''NOITE DE VERÃO PRECOCE''


Céu de trovão;
lá no jardim
treme uma tília.
A tarde chega ao fim.

Claro relâmpago
deixa-se ver
com grandes olhos
no tanque úmidos.

Nas hastes frágeis
as flores ouvem
aproximar-se
o anjo da foice.

Céu de trovão,
ar abafado:
- "Fala , não sentes também?"
A rapariga estremece a meu lado.

Hermann Hesse

''OUTONO PRECOCE''

Odor picante já de folhas murchas,
trigais a abrir-se vagos e sem vista:
sabe-se que das tempestades próximas
uma desnucara nosso exausto verão.

As vagens da giesta rangem. De repente
avultam ante nós o distante e o lendário:
o que hoje imaginamos ter na mão
perde-se, e cada flor, misteriosamente.

Na alma assustada cresce um tímido desejo:
de não prender-se à vida em demasia,
de aceitar como as árvores o emurchecer,
de não deixar que o seu outono faltem cores e alegria.


Hermann Hesse

'Quanto mais envelhecia...'

Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas
me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava,
tanto mais claramente compreendia onde eu deveria
procurar a fonte das alegrias da vida.
Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo (...).
O dinheiro não era nada, o poder não era nada.
Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.
A beleza não era nada.

Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar de sua beleza.
Também a saúde não contava tanto assim.
Cada um tem a saúde que sente.
Havia doentes cheios de vontade de viver
e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer.
A felicidade é amor, só isto.

Feliz é quem sabe amar. Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.

O amor quer somente amar.


(Hermann Hesse)

''PERDIMENTO''




Sonâmbulo tateio entre bosque e barranco,
há um halo de magia aceso ao meu redor;
sem reparar se sou bem aceito ou maldito,
sigo à risca o meu próprio mandato interior.

Quantas vezes veio chamar-me a realidade
em que vós existis, para me comandar!
Dentro dela eu ficava assustado e sem forças,
e logo descobria um jeito de escapar.

Ao meu país ardente, do qual me privais,
ao meu sonho de amor, do qual me sacudis,
como as águas retornam sempre para o mar
também meu ser retorna usando mil ardis.

Amigas fontes guiam-me com seu cantar,
aves de sonho as plumas de luz a ruflar:
de novo faz-se ouvir o som da minha infância
- em áurea rede, ao doce zumbir das abelhas,
junto de minha mãe volto enfim a me achar.

Hermann Hesse

''FIM DE INVERNO''

Na verde encosta coberta de asas
já repica um azul de violetas.
Somente ao longo da floresta escura
demora a neve em línguas dentilhadas,
mas gota a gota vai-se desfazendo
atraída pela terra.
No pálido céu alto pastam alvos
rebanhos de nuvens. Um pintassilgo
em amoroso canto se desfaz:
-Homens, amai-vos e cantai em paz!

Hermann Hesse

''PELOS CAMPOS''


Pelos céus passam as nuvens,
sobre os campos sopra o vento,
pelos campos erra o filho
perdido de minha mãe.

Pelas ruas rolam folhas,
sobre as árvores há pássaros.
Sobre as montanhas, em algum lugar
minha pátria há de estar.

Hermann Hesse

terça-feira, 27 de agosto de 2013

RIO



Como vai serena a água!
Unifica silêncios.
À deriva, espadas
de cristal afiam, lenta
espera, seus gumes...
O mar precisa delas.
Porém, uma frescura errante
dispersa vozes apaixonadas
por todo o rio.
Elas pedem, juram, recitam.
Pulsação da correnteza!
Como bate! Delira!
Sob as águas singram
céus íntimos.
A corola do ar profundo
ilumina-se.
As vozes seguem ainda
mais apaixonadas. Vão ansiosas.
Eu queria, eu queria...
Todo o rio suspira.

Jorge Guillén
Trad.:Luis Costa

PERFEIÇÃO



Pende curvo o firmamento, 
compacto azul sobre o dia.
Eis o arredondamento
do esplendor: é meio-dia.
Tudo é cúpula. Central
sem querer, a rosa, feita
cativa do sol no zênite.
E dá-se tanto o presente
que o pé caminhante sente
a inteireza do planeta. 

Jorge Guillén
Trad.:Izacyl Guimarães Ferreira




ANILLO



Ya es secreto el calor, 
ya es un retiro
de gozosa penumbra compartida.
Ondea la penumbra. 
No hay suspiro
flotante. Lo mejor soñado es vida.
El vaivén  de un 
silencio luminoso
frunce entre las persianas una fibra
palpitante. 
querencia del reposo:
una ilusión en el polvillo vibra.
Desde la sombra 
inmóvil, la almohada
brinda a los dos, felices, el verano
de una 
blancura tan afortunada
que se convierte en sumo acorde humano.
Los dos felices, en las 
soledades
del propio clima, salvo del invierno,
buscan en 
claroscuros sin edades
la refulgencia de un estío eterno.
Hay tanta plenitud en 
esta hora,
tranquila entre las palmas de algún hado,
que el curso 
del instante se demora
lentísimo, cortés, enamorado.

¡Gozo de gozos: el alma en la piel,
ante los dos el jardín 
inmortal,
el paraíso que es ella con él,
óptimo el árbol sin 
sombra de mal!

Luz nada más. He ahí los amantes. 
Una armonía de montes y ríos,

amaneciendo en lejanos levantes,
vuelve inocentes los dos albedríos.

¿Dónde estará la apariencia sabida?
¿Quién es quien surge? Salud, 
inmediato
siempre, palpable misterio: presida
forma tan clara a un 
candor de arrebato.

¿Es la hermosura quien tanto arrebata,
o en la terrible alegría 
se anega
todo el impulso estival? (¡Oh beata
furia del mar, esa 
ola no es ciega!)

Aun retozando se afanan las bocas,
inexorables a fuerza de ruego.

(Risas de Junio, por entre unas rocas,
turban el límpido azul con su 
juego.)

¿Yace en los brazos un ansia agresiva ?
Calladamente resiste el 
acorde.
(¡Cuánto silencio de mar allá arriba!
Nunca hay fragor que 
el cantil no me asorde.)

Y se encarnizan los dos violentos
en la ternura que los encadena.

(El regocijo de los elementos
torna y retorna a la última arena.)

Ya las rodillas, humildes aposta,
saben de un sol que al espíritu 
asalta.
(El horizonte en alturas de costa
llega a la sal de una 
brisa más alta.)

¡Felicidad! El alud de un favor
corre hasta el pie, que retuerce 
su celo.
(Cruje el azul. Sinuoso calor
va alabeando la curva del 
cielo.)

Gozo de ser: el amante se pasma.
¡Oh derrochado presente 
inaudito,
Oh realidad en raudal sin fantasma!
Todo es potencia de 
atónito grito.

Alrededor se consuma el verano.
Es un anillo la tarde amarilla.

Sin una nube desciende el cercano
cielo a este ardor. ¡Sobrehumana, 
la arcilla!

Jorge Guillén








TU,TU,TU,MINHA INCESSANTE...



Tu, tu, tu, minha incessante
primavera profunda
meu rio de verdor
agudo e aventura!

Tu, janela ao diáfano:
desenlace de aurora,
modelação do dia:
meio-dia em sua rosa,

tranquilidade de lume:
sesta do horizonte,
lumes em luta e coro:
poente contra noite,

constelação do campo,
fabulosa, precisa,
trêmula formosamente,
universal e minha!

Tu mais ainda: tu como
tu, sem palavras toda
singular, desnudez
única, tu, apenas!


Jorge Guillén





MÁS VERDAD


Sí, más verdad, 
Objeto de mi gana. 

Jamás, jamás engaños escogidos. 

¿Yo escojo? Yo recojo 
La verdad impaciente, 
Esa verdad que espera a mi palabra. 

¿Cumbre? Sí, cumbre 
Dulcemente continua hasta los valles: 
Un rugoso relieve entre relieves. 
Todo me asombra junto. 

Y la verdad 
Hacia mí se abalanza, me atropella. 

Más sol, 
Venga ese mundo soleado, 
Superior al deseo 
Del fuerte, 
Venga más sol feroz. 

¡Más, más verdad!

Jorge Guillén

CIDADE DOS ESTIOS


Cidade acidental
dos estios. Senhoras
sobre luz, em  azul.

Sedas, sedas extremas
insinuam, evitam
os ângulos fugitivos.

Desliza pelo seu carril
a reta. Corre, corre,
corre para a sua conclusão.
                       Ai! a cidade está
                       Louca de geometria,
                       Ó muito elementar!
Agosto é sábio
Com toda a simplicidade.Vértice,
Fatalidade subtil.

Por uma rede de caminhos,
De claríssimas  tardes,
Seguem as delícias exatas.

E aos raios de sol
Evidentes, aconchega-se
A cidade essencial.

Jorge Guillén
Tradução Luís Costa 









ESTÁTUA EQUESTRE



Permanece o trote aqui
entre o arranque e minha mão.
Bem seguro fica assim
seu desejo de evasão.
Porque vou sobre o corcel
esplendidamente fiel:
imóvel com todo o brio.
E à força de quanta calma
Tenho do bronze toda a alma
Clara neste céu de frio.

Jorge Guillén
Trad.:Henriqueta Lisboa

MÁS VERDAD


Sí, más verdad, 
Objeto de mi gana. 

Jamás, jamás engaños escogidos. 

¿Yo escojo? Yo recojo 
La verdad impaciente, 
Esa verdad que espera a mi palabra. 

¿Cumbre? Sí, cumbre 
Dulcemente continua hasta los valles: 
Un rugoso relieve entre relieves. 
Todo me asombra junto. 

Y la verdad 
Hacia mí se abalanza, me atropella. 

Más sol, 
Venga ese mundo soleado, 
Superior al deseo 
Del fuerte, 
Venga más sol feroz. 

¡Más, más verdad!

Jorge Guillén

DOMINIO DEL RECUERDO




Un recuerdo -pasado deleitoso-
me ataca y se apodera
tanto de mí que interna primavera
me somete a su acoso.

Aquel amor aun vibra
bajo el impulso de una imagen, mero
fantasma. Pido, quiero.
un imán se me impone fibra a fibra.

El espíritu invade mi existencia
con poder soberano.
Espíritu ya es cuerpo. ¿Quién presencia
tal fusión, tal arcano?

Amor, que fue tan fuerte
durante aquel minuto fenecido,
saliendo de su nido
mental en sensación se me convierte.

Mi memoria ya es carne, ya un placer
-soñado- resucita,
ya la verdad de mi vivir da cita.
¿Alma, cuerpo ? Mi ser.

Jorge Guillén

TARDE MAYOR




Libre nací y en libertad me fundo.

CERVANTES



Tostada cima de una madurez, 
Esplendiendo la tarde con su espíritu 
Visible nos envuelve en mocedad. 

Así te yergues tú, para mis ojos 
Forma en sosiego de ese resplandor, 
Trasluz seguro de la luz versátil. 

Si aquellas nubes tiemblan a merced, 
Un día, de un estrépito enemigo, 
Mescolanza de súbito voraz, 

Oscurecidos y desordenados 
Penaremos también. Y no habrá alud 
Que nos alcance en la ternura nuestra. 

Esos árboles próceres se ahíncan 
Dedicando sus troncos al cénit, 
A un cielo sin crepúsculos de crimen. 

Si tal fronda perece fulminada, 
Rumoroso otra vez igual verdor 
Se alzará en el olvido del tirano. 

Y pasará el camión de los feroces. 
Castaños sin Historia arrojarán 
Su florecilla al suelo —blanquecino. 

Un ámbito de tarde en perfección 
Tan desarmada humildemente opone, 
Por fin venciendo, su fragilidad 

A ese desbarajuste sólo humano 
Que a golpes lucha contra el mismo azul 
Impasible, feroz también, profundo. 

Fugaz la Historia, vano el destructor. 
Resplandece la tarde. Yo contigo. 
Eterna al sol la brisa juvenil.

Jorge Guillén



DEL TRANSCURSO


Miro hacia atrás, hacia los años, lejos, 
Y se me ahonda tanta perspectiva 
Que del confín apenas sigue viva 
La vaga imagen sobre mis espejos. 

Aun vuelan, sin embargo, los vencejos 
En torno de unas torres, y allá arriba 
Persiste mi niñez contemplativa. 
Ya son buen vino mis viñedos viejos. 

Fortuna adversa o próspera no auguro. 
Por ahora me ahínco en mi presente, 
Y aunque sé lo que sé, mi afán no taso. 

Ante los ojos, mientras, el futuro 
Se me adelgaza delicadamente, 
Más difícil, más frágil, más escaso.

Jorge Guillén

O MANANCIAL



Olhe bem. Agora!
Brancuras em curva
triunfalmente una
- frescor rumo à forma -
guiam o equilíbrio
por entre o tumulto
- pródigo, futuro -
de um caos já vivo.
E a água desnuda
se desnuda mais.
Mais, mais, mais! Carnal
se apressa e se afunda. 

Jorge Guillén
Trad.:Izacyl Guimarães Ferreira


DUERMES.MI MANO TOCA SUENÕ.DUERMES


Duermes. Mi mano toca sueño. Duermes.
Gozo de tu inocencia confiada,
de tu implícita forma en esa noche
que hace tan suya con amor la mano.

Te siento dormir sin verte,
serenísima, sagrada,
nunca imagen de la muerte,
y oponiéndote a la nada
triunfar como piedra inerte.

La delicada masa de tu sueño
se espesa junto a mí, sin paz nocturna,
que así convive con la invulnerable,
cuyo retorno al despertar es siempre
la súbita inmersión en nuestra dicha.

Sumido en un calor de dos, el sueño
relaja su clausura, casi abierta
dulcemente hacia el día aún isleño.
Calor, amor.
La historia tras la puerta.


Jorge Guillén

OS NOMES



Madrugada. O horizonte
Entreabre as suas pestanas
E começa a ver. O quê? Nomes.
Nomes inscritos na pátina

Das coisas. A rosa, porém,
Ainda hoje se chama rosa
E a memória da sua
Transformação, pressa.

Pressa de viver mais.
Que um amor longo nos eleve
À pujança intempestiva
Do instante, tão ágil

Que mal atinge a sua meta
Logo impõe o depois.
Alerta! Alerta! Alerta!
Eu vou! Eu vou !

E as rosas? Pestanas
Cerradas: Horizonte
Final. Talvez nada?
Porém, ficam os nomes.

Jorge Guillén
Trad.:Luís Costa

HACIA EL FINAL




Llegamos al final,

A la etapa final de una existencia.


¿Habrá un fin a mi amor, a mis afectos?

Sólo concluirán

Bajo el tajante golpe decisivo.


¿Habrá un fin al saber?

Nunca, nunca. Se está siempre al principio

De una curiosidad inextinguible

Frente a infinita vida.


¿Habrá un fin a la obra?

Por supuesto.

Y si aspira a unidad,

Por la propia exigencia del conjunto.

¿Destino?

No, mejor: la vocación

Más íntima.


Jorge Guillén

ADVENIMIENTO



¡Oh luna, cuánto abril,
qué vasto y dulce el aire!
Todo lo que 
perdí
volverá con las aves.

Sí, con las avecillas
que en coro de alborada
pían y pían, 
pían
sin designio de gracia.

La luna está muy cerca,
quieta en el aire nuestro.
El que yo 
fui me espera
bajo mis pensamientos.

Cantará el mi señor.
En la cima del ansia.
Arrebol, arrebol.

Entre el cielo y las auras.

¿Y se perdió aquel tiempo
que yo perdí?. La mano
dispone, dios 
ligero,
de esta luna sin año.

Jorge Guillén